Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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terça-feira, maio 30, 2006

Parafuso - Letra do Fado Africano, cantada com a música do "Domingo à tarde", do Nelson Ned


Parafuso - Fado Africano

O que é, que você vais fazer, nos domingo de tarde?
Pois, eu queres engatar a você, para sair comigo
Passear, por aí nos palhota, e no cidade
Dizer os coisa doce a você, e dar uma beijinho
Eu não tenho, os roupa p'ra passar, nos domingo de tarde
Pois, nos domingo, é os dias de folga, p'ra'qui eu os mainato
Quando eu vejo, os mamana passando, que coisa tão chunguila
Que chatice passar os domingo, sem meu Josefina
Mas você, sozinha nos palhota, sei que vais entender
Sem os "love", é muito mais que difícil, um gajo viver
Faça favor, minha amor, não chateia uma pessoa, e diz o verdade
O que é que você vais fazer, nos domingo de tarde?
Ai, Josefina, diz lá filha, o qu'é você vais fazer nos domingo de tarde?
A gente podia fazer, pouco pouco marmelada
A ti não te custava nada, e a mim sabia tão bem, diz lá Josefina
Faça favor, minha amor, não chateia uma pessoa, e diz o verdade
O que é que você vais fazer, diz lá Josefina,
O que é que você vais fazer, nos domingo de tarde?

segunda-feira, maio 29, 2006

Reflexões de uma 2.ª feira


Meu caro Blog, meus caros amigos,

1- Olá! Ando um pouco desnorteado nestas andanças informáticas e virtuais. Tomei a nuvem por Juno e as coisas, aqui, não se passam do mesmo modo que no mundo real. Aqui as coisas têm outra dimensão. Como não existem medidas espaciais, temporais ou outras quaisquer, imaginamos as pessoas como quisermos: em tamanho, em idade, em ética e em intelecto . E, muitas delas, para não ficarmos desiludidos com a nossa imaginação, tomam-se de importância tamanha, que nos sentimos pigmeus ao pé de gente que se autodeifica. Então neste submundo dos blogs a coisa chega a atingir foros de um tal ridículo, que faz com que nos interroguemos se não andará por aqui patologia para ser analisada pelos seguidores de Freud.

2 - Timor - Em Timor grita-se por Portugal, apupa-se a Austrália e pede-se a nossa GNR. Sempre me pertubou imenso toda a problemática de Timor e sempre senti uma profunda vergonha pelo comportamento de Portugal para com aquela ex-colónia. A única vez que me senti bem de consciência, em relação ao nosso comportamento nacional, foi na recepção que a população de Lisboa fez ao seu bipo D. Ximenes Belo, quando visitou Portugal após os acontecimentos que ocorreram naquele território e que levaram à criação do Estado Timorense.

3 - A nossa Selecção de Sub-21 - Até parecia que eram heróis de algum feito que honrasse a Pátria e nos enchesse de orgulho nacionalista, tal a saudação que receberam, no final, do público que assistiu ao desafio de futebol em Guimarães. Estavam todos esquecidos que a selecção estava ali para disputar o Campeonato da Europa, a jogar em casa com o apoio do seu público, e que ao fim do tempo regulamentar dos 3 jogos de apuramento para a fase seguinte - 270 minutos - não tinha conseguido marcar um único golo. Ninguém quer ver que o rei vai nu, no futebol e em outras coisas e depois queixam que a vida está difícil.

4 - De livros, o passado fim-de-semana e o princípio desta semana, que hoje começa, foram razoáveis. Senão vejamos:

a) - António Aleixo - Este Livro Que Vos Deixo... Volume I, 19.ª edição, Lisboa, 2005, Casa das Letras (o novo nome da Editorial Notícias);

b) - António Aleixo - Este Livro Que Vos Deixo... Inéditos - Volume II, 14.ª edição, Lisboa, 2005, Casa das Letras;

c) - Carlos Gil - Xicuembo - 1.ª edição, Coimbra, Maio/2005, Pé de Página Editores, Lda.;

Agora, caro blog, caros amigos, tenho que ler isto tudo e, depois, compartilhar convosco as minhas impressões sobre o que tiver lido.

Mas para não ficarem aguados, aqui vos deixo as quadras que constam da contra-capa do 1.º volume da obra de António Aleixo.

Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.

Sou humilde, sou modesto;
Mas, entre gente ilustrada,
Talvez me digam que eu presto,
Porque não presto pra nada.

Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.

Tu não tens valor nenhum,
Andas debaixo dos pés,
Até que apareça algum
Doutor que diga quem és.

António Aleixo

Com amizade,

Manuel Palhares

Odivelas, 29 de Maio de 2006.

terça-feira, maio 16, 2006

Do Largo do Município até à Praça da Índia - V

Prédio Argus - A Garagem dos Machimbombos!

5.ª Parte

- Pronto, pronto, meus amigos! Temos que continuar, não podemos ficar aqui eternamente parados ao pé do Cinema S.Jorge. Estamos muito atrasados, temos que continuar! - disse o Luís Paula Campos, atrapalhado com os papéis do plano da viagem e o telemóvel na mão esquerda; isto para não falar dos binóculos de infravermelhos, dos óculos de sol e da máquina fotográfica digital que trazia ao pescoço e da câmara de vídeo que levava na mão direita. - Venham ver onde eu nasci. Estão a ver aquela casa velhinha, mesmo, mesmo, ali ao lado da garagem dos machimbombos, estão?! Pois foi ali que eu nasci. Eram ali as instalações da antiga Casa de Saúde da Beira - afirmou ele muito exaltado e perdendo, por uns intantes, aquela postura um pouco severa que é sua característica, mais fruto da sua formação profissional do que da sua maneira de ser. - Venham, venham, que eu quero lá ir tirar umas fotografias e filmar aquilo tudo - continuou o Luís, até que reparou em algo estranho. - Ó Paulo, o que é que estás a fazer aí em cima da árvore? - exclamou ele, olhando arreliado para o Paulo Barreto (o qual tinha trepado para o cimo de uma árvore), até que deu de caras com o olhar grave e sério da Odília que, encostada ao tronco, esperava que o Paulo descesse. O Luís não pôde evitar soltar uma gargalhada e foi logo perfurado pelo olhar faiscante da Odília.
- Quem nasceu ali primeiro, na Casa de Saúde, fui eu, graças ao senhor doutor Arez da Silva, porque sou mais velho que tu, bem feito! - afirmou o Gonzaga todo contente, usando uma camisa com flores vermelhas que tinha comprado quando da sua última "tournée" musical ao Hawai e de chupa-chupa na mão.
- Já agora posso dizer-vos que também eu nasci ali - afirmou o Nani Palhares, com um ar entre o pensativo e o nostálgico, à medida que cofiava vagarosamente a barba.
E lá fomos em grande algazarra em direcção às antigas instalações da Casa de Saúde da Beira, a qual ficava juntinho ao Prédio Argus, cujo rés-do-chão era ocupado por uma das garagens dos transportes colectivos da Beira e, por isso, era também chamado de Prédio da Garagem dos Macimbombos.
Não deixou de haver quem se lembrasse dos manos Veludo, nossos colegas e amigos, que habitaram naquele prédio. Também houve quem recordasse as amigas e os amigos que moraram ali nos Prédios da Administração Civil ou perto deles, mesmo em frente ao Campo de Golfe da Beira: a Ana Maria Metelo, os manos Pinto Ferreira, o Carlos Heitor Neves (CHN) e os irmãos, o Adalberto Fenton, os manos Saraiva de Moura, os manos Meireles, os manos Roueff... Embora fosse noite, olhámos e recordámos as aventuras vividas por muitos de nós naquele Campo de Golfe da Beira, o qual chegou a ser considerado um dos melhores de África, devido ao seu enquadramento e à sua grande extensão. Resolvemos só retomar a avenida que ligava a Praça Almirante Reis (onde se situava o cinema S. Jorge) à Praça da Índia, dois quarteirões mais à frente, de modo a podermos passar junto às instalações da Acção Católica da Beira e do Episcopado, a residência do bispo. Viramos no Prédio Argus (ver foto) para a direita e, com o campo de golfe à nossa esquerda, fomos pelo passeio até à esquina seguinte, onde se situavam as instalações da Acção Católica da Beira.
Quantas recordações, meu Deus! Tantos de nós tínhamos ali frequentado a JEC ( Juventude Escolar Católica), a JOC (Juventude Operária Católica), a JUC (Juventude Universitária Católica) e o CNE (Corpo Nacional de Escutas). Os bailes dos Santos Populares e os de passagem de ano que ali se realizaram e onde muitos de nós, pela primeira vez, usamos calças compridas e sentimos nos braços o tremer do corpo de uma menina... Do outro lado do passeio, o Espicopado da Beira - a residência do bispo da cidade da Beira - onde até Janeiro de 1967 viveu esse homem singular que foi o seu primeiro bispo: D.Sebastião Soares de Resende. * ( Ver link em roda-pé!)
Retomada de novo a avenida principal, fomos quase dar em frente à casa do José Roca, uma casa tipicamente colonial, ao fundo do jardim, assente em pilares. Ao passarmos por ela pareceu-me ver toda a família Roca a acenar-me e, o mais estranho, é que eu estava ao lado deles, dizendo adeus a mim próprio: eu com seis, com sete, com oito anos... dizia adeus a mim proprio!
Um pouco mais à frente passámos pela nova Residência do Governador Civil da Beira e, uns metros depois, finalmente, chegámos à Praça da Índia. Foi a loucura total com todos nós a corrermos para a praia e para a água, deixando cair pelo caminho, na areia, os objectos que levávamos nas mãos. Há trinta e dois anos que não abraçávamos o Índico, esse mar que, pelo menos na Beira, nem sequer era assim tão salgado, mas antes cálido e doce...
Os autocarros que estavam à nossa espera há mais de uma hora, para nos levar de volta para o Hotel Embaixador, faziam soar as buzinas. Todos molhados, mas com a felicidade de crianças estampada nos rostos, lá nos dirigimos, contrafeitos, para o transporte que nos iria conduzir ao hotel. Mas não pensem que foi fácil meter todos os amigos no autocarro...
- Ó Luís! - gritava agora o Paulo Barreto. - Para onde pensas que vais, meu?! - perguntava-lhe ainda o Paulo.
- Eu não saio daqui sem ir ver a minha casa que é já ali no Bairro das Palmeiras.
- E eu sem ir até ao Macúti - anunciou o Jorge Cortez.
- Quem já não sai daqui sou eu - dizia o Gonzaga, acompanhado pelo Costinha e pelo Cruz Sonap, à entrada da rua da vala, por onde se podia ir para o Liceu e para a Escola...
Eu, já no autocarro, olhei para a parte da marginal que dali dava acesso ao Oceana e ao Jardim do Bacalhau e vi a Maria Manuel, comigo pela mão - ela com nove anos e eu com seis. Ambos me acenavam e sorriam, em câmara-lenta...


FIM


Manuel Palhares

Odivelas, 18 de Maio de 2006.

*
http://www.oecumene.radiovaticana.org/por/Articolo.asp?c=77183


A Praça da Índia

quarta-feira, maio 10, 2006

Do Largo do Município até à Praça da Índia - IV


4ª Parte

Continuávamos à porta do S. Jorge: uns, sentados no pequeno muro por baixo do mural do Santo, iam recordando os tempos por ali passados; outros foram dar uma espreitadela à sala do cinema. Mas que noite maravilhosa aquela que estávamos a passar! Quantas emoções se sentiram por aqueles lados, quantas recordações se reviveram. Estávamos nós por ali, quando, de repente, vimos uma luz muito brilhante, para os lados do café do cinema, acompanhada por uma música, as quais pareciam chamar por nós. Atónitos, levantámo-nos e, como se fôssemos bonecos telecomandados, contornámos o cinema e dirigimo-nos para a parte da avenida que dali do café nos levava até à Praça da Índia. Parámos, de costas para o café, e olhámos para o terreno que ficava à nossa frente: era dali que vinham aquela forte mas suave luz e aquela música tão apelativa. De repente surgiu uma intensa neblina que nos rodeou e isolou do cenário que nos envolvia: só nós, aquela luz e aquela música.
- Que cacimba será esta? Que cacimba será esta? - ainda se ouviu alguém perguntar.
- Minhas senhoras e meus senhores! Sejam muito bem-vindos, de novo, a este lugar onde estão guardados os sonhos da vossa infância e juventude. Quem sou eu, perguntais vós?! Pois eu sou o apresentador, o mestre de cerimónia de todos os circos que por aqui montaram tenda - o Boswell Wilkie Circus, o Brian Boswell Circus e o Circo do Brasil. Entrem, entrem. Não façam cerimónias. Venham aqui ver, de novo, as crianças que uma vez todos vós já foram. Estão todos cá, guardados no arquivo da minha memória. Afinal um flashback de vez enquando não faz mal a ninguém e ajuda a refrescar a memória, para depois contarem histórias aos netos - dizia-nos do centro de uma enorme pista de circo , um gigante apresentador, vestido a preceito. E por uns mágicos momentos vimos passar diante dos olhos todas aquelas coisas de encantar: os malabaristas, os contorcionistas e os trapezistas; mais os animais, os engraçados anões e os palhaços. Nós, que começámos por nos sentar nas bancadas com a idade e o aspecto que temos hoje, de repente, com um toque da varinha do prestidigitador, transformámo-nos por uns momentos - apenas por uns momentos - nas crianças que éramos então. Foi aí que vi a Odília a correr atrás do Paulo, o qual se preparava para subir lá para cima, para os trapézios...
Meus caros amigos, pois era ali, junto ao S.Jorge, do outro lado da rua - a que agora nos há-de levar até à Praça da Índia - que os circos que visitavam a Beira montavam a tenda e nós, crianças e adolescentes, fomos actores de todas as aventuras e de todos os sonhos que o circo desperta em nós.
Com amizade,


Manuel Palhares

Odivelas, 10 de Maio de 2006.

quinta-feira, maio 04, 2006

Mulheres!


Mulheres!
Ah! As mulheres!
Mulheres, Mulheres, Mulheres.
Ó como eu gosto delas, meu Deus:
Das Mulheres.
Porque elas são...
Não, melhor dizendo são...
Vendo melhor são...
Mas se reflectirmos, elas são...
Por um lado elas são...
Mas por outro lado são...
Porque elas são, elas são...
Elas são, pura e simplesmente,
Tão e apenas somente,
Maravilhosamente,
Elas são Mulheres.
Não importa se são novas,
Não importa se são velhas,
Não importa se são magras,
Não importa se são gordas,
Não importa se são altas,
Não importa se são baixas,
Não importa se são loiras,
Não importa se são ruivas,
Não importa se são morenas.
Se são avós, ou mães,
Se são tias, ou irmãs,
Se são primas, ou amigas,
Se são amantes, ou esposas.
O que importa, meu Deus,
Nem que para isso ficasse,
Com menos uma costela,
O que importa e obrigado
Meu Deus,
É que as tenhas feito,
Assim como as fizeste,
Tão maravilhosamente
E tão simplesmente e apenas:
Mulheres.


Manuel Palhares

Odivelas, 4 de Maio de 2006.

terça-feira, maio 02, 2006

Do Largo do Município até à Praça da Índia - III


3.ª Parte

A muito custo e com o Luís Paula Campos e o Paulo Barreto a tentarem pôr um pouco de ordem naquela barafunda, lá deixamos o Pavilhão da Mocidade Portuguesa, depois de termos estado por ali bastante tempo. Porém, não ia ser fácil dar um andamento ligeiro ao nosso passeio, porque uns passos mais à frente estávamos em frente ao Hospital Rainha D. Amélia e começou de novo a confusão.
- Eu nasci aqui! - disse alguém. Foi o que bastou.
- Está lá calado! - disse outra. - Eu nasci aqui primeiro, porque sou mais velha.
- E eu vim cá apanhar uns pontos, quando caí do muro de minha casa - disse ainda outro.
- E eu vinha cá às consultas, quando era pequenina disse a Isabel Ribeiro. - Até foi o Dr. Gonçalves Dias que me curou da papeira, fiquem a saber.
- Minhas senhoras, meus senhores, tenham paciência, mas temos que continuar. Não podemos demorar tanto em cada sítio - exclamou o Luís, já com os pêlos do bigode eriçados. - Não se esqueçam que amanhã temos que nos levantar cedo para a visita ao Dondo e ao Mafambisse - dizia, enquanto consultava o plano da nossa excursão a Moçambique.
- Ó pá, estás a falar para o boneco - retorquiu o Costinha. - Ninguém te está a ouvir. Parecem uns putos, não estás a ver?!
- Então, tu que és mais velho, vê lá se consegues que esta malta ande e não páre de minuto a minuto - dizia o Luís, habituado que estava à disciplina, pois era oficial do exército de profissão.
- Isto são muitos anos de saudade recalcada, muitos nós na garganta e também, porque não dizê-lo, muitas lágrimas - rematou calmamente o Costinha.
Lá conseguimos chegar ao próximo cruzameto, onde o muro do hospital "dobrava" para a esquerda até à Rua Correia de Brito, com a Casa Funerária lá ao fundo, em frente ao Campo de Golfe da Beira. Para a direita, aquilo a que os beirenses antigos chamavam de Rua das Casuarinas, a qual nos levava, lá mesmo ao fundo, até ao ATCM e ao Grande Hotel, com a recente Mexicana mais ou menos a meio. Ainda neste cruzamento, a Farmácia ? do Dr. Tzitzivacos.
- Vamos, vamos! Nós já alugámos autocarros para uma volta pela Beira. Hoje a volta é até à Praça da Índia e a pé, por isso temos que nos despachar - dizia o Paulo Barreto, que não cabia em si de contente, recordando-se que tantas vezes por ali tinha passado a caminho do Colégio das " Ma méres".
Passado este cruzamento, foi rápido até chegarmos ao próximo - o cruzamento da Avenida da República com a Rua Sancho Toar. Aqui a algazarra foi mais do que muita. Porquê? Porque aquele era de novo um cruzamento que trazia à memória emoções difíceis de controlar. Ali, mesmo na esquina, perante nós, o Colégio Nossa Senhora dos Anjos, um ícone da Beira. Para a esquerda, pela Rua Sancho Toar, o seu muro ia até ao fim do quarteirão, dando a volta para a rua de trás, a Rua Governador Augusto Castilho. Pela Avenida da República, as instalações do colégio estendiam- se até à Praça Almirante Reis, onde se situa o Cinema S. Jorge.
- O meu colégio, o meu colégio! - pulava de contente o Paulo Barreto.
- Qual seu colégio, qual quê?! Era o que mais faltava - quase gritava a Odília, arregalando muito os olhos para o Paulo Barreto. - Eu andei aqui dez anos, está a ouvir? Se o colégio é de alguém, é meu. Olha o catraio, não querem lá ver?!
O Luís, com vontade de se rir, pôs "Um ar grave e sério" - onde é que eu já ouvi isto? - e no seu timbre de Tenente Coronel, com muito esforço, lá consegiu dizer:
- Minha senhora, tenha calma. O colégio dá para todos... - mas calou-se logo com o olhar que a Odília e outras meninas lhe deitaram.
O pior é que, para aumentar a confusão, desta esquina também se avistava, do lado direito, lá mais para o fundo da Rua Sanche Toar, as primeiras instações do Liceu Pêro de Anaia. O Liceu só ali funcionou, provisoriamente, de Setembro de 1956 até Janeiro de 1959, durante dois anos e quatro meses, até se concluirem as instações definitivas em Matacuane. Do lado esquerdo, a Rua Sancho Toar leva-nos até à Rua Correia de Brito, já anteriormente referida, a qual, juntamente com o Campo de Golfe, do lado esquerdo do sentido que levávamos, nos acompanharam até quase à Praça da Índia.
E a muito custo lá chegámos ao Cinema S. Jorge, com o lindo jardim da Praça Almirante Reis à nossa esquerda.
- Eh malta! Foi aqui, foi aqui! - explodiu o Victor "Hunter".
- Foi aqui, o quê? - questionámos nós.
- Então foi aqui que eu fui actor, na peça infanto-juvenil "No Reino Sonhador do Rosival", foi aqui que vivi os melhores tempos da minha vida e fiz amizades sem fim, que ainda duram até hoje...


Manuel Palhares

Odivelas, 2 de Maio de 2006.

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