Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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Localização: Odivelas, Lisboa, Portugal

domingo, fevereiro 26, 2006

Notícias: Música da Semana, Novos Links e Poeta da Semana


Caros amigos,

1 - A Música da Semana: "Don't" de Elvis Presley.

2 - Novos links:

a) - Arquivo Nacional da Torre do Tombo, no grupo Instituições;

b) - Zambézia Online, o primeiro portal dedicado à província da Zambézia e onde podem assinar "O Autarca", o primeiro jornal online da cidade da Beira, no grupo Imprensa Internacional.

3 - O Poeta da Semana: José Craveirinha; poema - Sementeira.

Com amizade,

Manuel Palhares

Odivelas, 26 de Fevereiro de 2006.

De José Craveirinha - Sementeira


SEMENTEIRA

"Cresce a semente
lentamente
debaixo da terra escura.

Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de África
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.

Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.

E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.

Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.

Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!"

1955 1a Versão


Fonte: http://geocities.yahoo.com.br/poesiaeterna/

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Ciúmes no Masculino


- Olá, estás bom? - perguntei eu, meio a brincar, meio receoso, com a reacção que a minha longa ausência podia ter provocado.
- É preciso não ter vergonha na cara! Não apareces por aqui desde as quatro da manhã do dia cinco de Dezembro e ainda perguntas se estou bom?! Passaram o Natal e o Fim-do-Ano e tu nada. Nem um simples telefonema com uma qualquer esfarrapada desculpa. Primeiro, enquanto precisaste de mim, eram só juras. Gosto muito de ti - dizias, preciso muito de ti - afirmavas, não posso passar sem ti - continuavas, sem ti estou perdido - bajulavas. És o meu querido e o meu lindinho - não tinhas vergonha de o afirmar perante tudo e todos, para quem te quisesse ouvir. Sabes o que tu és?! És um fingido, um hipócrita, um jesuíta, um falso, um sem carácter, um vendido, um lambe-botas, um mariazinha vai com os outros, um vira-casaca. Foi só o outro aparecer e, coquete e volúvel como és, trocaste-me logo por ele, esquecendo todas as juras que me fizeste.
- Calma, calma! O que para aí vai. Tem calma. Deixa-me explicar.
- Qual explicar, qual quê! Para quê?! Para ouvir mais mentiras?! Anda, volta lá para o teu querido, seu ingrato. Eu sei que ele é muito mais fascinante que eu, pois já não passo de um pobre velho coitado.
- Estás a ser injusto. Não é nada disso. Deixa-me falar.
- Ah! Eu é que estou a ser injusto?! Essa é boa. Eu que sempre fui o teu suporte, que sempre apoiei e suportei, sem um queixume, o peso das tuas inseguranças e hesitações! E quando te enganavas, era eu que aguentava com as tuas fúrias, com os teus erros. Era sobre mim que eles ficavam marcados - não vês como estou todo arranhado?! Mas foi só aparecer o outro e, fútil como és, ficaste logo caído de amores, e esqueceste todas as juras que me fizeste. Ingrato! Metes-me pena.
- Estás cheio de ciúmes e não tens razão para isso. É de ti que eu gosto. Mas fui fazer uma experiência, não consegui resistir. Qualquer um pode cair em tentação. Errar é humano!
- Pois, para ti é fácil dizeres isso, faz parte da tua pobre condição. És um fraco, é o que tu és. Viste-o, cheirou-te a novidade, e lá foste fazer mais uma experiência, sem te importar quem ferias. É mesmo típico dos da tua laia.
- Pronto! Desabafa lá. Deita tudo cá para fora. Mas depois quero que me deixes explicar o meu ponto de vista.
- O teu ponto de vista?! O teu ponto de vista?! É preciso mesmo não ter nehuma vergonha nessa cara. Meste-me nojo.
- Bem! Agora quem já está a ficar farto de tanta ciumeira sou eu. Não suporto mais esta caricata situação. Já te disse e repito que aquilo foi um pequeno devaneio. Deixei-me levar pela novidade. Foi uma pequena tentação que estava ali mesmo à mão. Fui fraco, não resisti, confesso.
- Desavergonhado!
- Vá lá, acalma-te, perdoa-me. Sabes bem que foi sempre sobre ti que derramei as sementes que originaram os frutos da nossa união, do nosso amor. Foi sempre contigo que compartilhei as alegrias, as tristezas, as emoções, os afectos, os sucessos e os insucessos. Eu sei lá que mais te dizer, para te convencer que tu foste e és o grande amor da minha vida. O resto foi paixão passageira, efémera, brejeira.
- Dizes bem. Foi sobre mim, no meu corpo, imaculado e virgem, que derramaste as sementes que abriram nos frutos que comigo deixaste. Mas, na altura própria, não te lembraste disso e ligeiro foste, na hora em que pecaste. Vai, vai ter com ele. Aliás sempre desconfiei um pouco de ti. Não sei porquê, mas as tuas juras de amor soavam-me a falsas. Larga-me de vez, volta de novo para essa tua volúvel e nova paixão. Fica de vez com ele e não voltes mais. Estão bem um para o outro. Não tens vergonha na cara. Já velho, agora é que te lembraste de arranjar outro, ainda por cima muito mais novo, para te aturar na velhice. Fica com o entusiasmo de mais uma nova paixão. Eu, volto a ficar limpo, puro e imaculado. Que esperas?! Volta para o teu novo brinquedo, volta lá para o teu computador e deixa-me a mim, o teu velho caderno de linhas, que já te foi tão útil, sossegado.


Manuel Palhares

Odivelas, 24 de Fevereiro de 2006.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

O Poeta da Semana : António Gedeão


TEMPO DE POESIA


Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.


António Gedeão

Fonte: Gedeão, António (2004) . Obra Completa. Lisboa: Relógio D' Água.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O Poeta da Semana : António Gedeão


Forma de Inocência


Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ser igual.


António Gedeão

Fonte: Gedeão, António (2004) . Obra Completa. Lisboa: Relógio D' Água.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O Poeta da Semana : António Gedeão


Impressão digital


Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.


António Gedeão

Fonte: Gedeão, António (2004) . Obra Completa. Lisboa: Relógio D' Água.

Notícias: Novidades - Novo Link

Meus caros Amigos,

1 - No grupo Literatura encontram um novo link que vos remete para um novo tema: Palavras e Expressões: Latinas e de outras línguas . Faço votos que venha a ter alguma utilidade.

2 - A partir de amanhã irei iniciar uma nova rúbrica a que chamarei "Poeta da Semana".
É minha intenção seleccionar, semanalmente, um poeta de expressão portuguesa e publicar, no decorrer da semana, poemas seus, que os meus amigos, se quiserem, farão o favor de comentar: o poeta, a relevância da sua obra no contexto literário português e da lusofonia, e o poema que estiver sujeito a ser comentado.

Com amizade,

Manuel Palhares

Odivelas, 2o de Fevereiro de 2006.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O Blog, o day after...


Pedindo help,
Socorro e ajuda,
Aos meus amigos
Eu de pronto recorri:
- Haja alguém
Que me acuda,
Nesta feia fria
Em que me meti!

Um amigo, diz-me
Para nunca me desviar,
Seguir sempre meu sentir,
Sem servir, e teclar!

Outra amiga, quer-me
Aqui de corpo inteiro,
Na construção civil,
A fazer de empreiteiro!

Pouca-terra, pouca-terra,
São comboios a passar.
Aguenta-te agora ao bife,
Não te apetecia brincar?

Isto de quereres bloggar
Ainda te vai fazer enloucar!



Assina o meu alter-ego, que é pessoa de absoluta confiança, para mim claro.
Eu vou ver se ainda tenho cura.

Odivelas, 16 de Fevereiro de 2006.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A Separação


A separação
Foi
Definitiva.

Soube-o logo,
Com a alma
A sangrar,
Ferida.

Naquele
Maldito dia.
No dia
Da partida.
No dia
Da despedida.

Não há remédio.
Ninguém o tem,
Para afagar
Este sofrimento,
Para acalmar
Esta dor.

Hoje
Venho dizer-te,
Que
Me recordo ainda,
De ti
E do nosso amor.

E tanto quanto
Me permite,
A memória
De velho, cansada,
Ainda me deleito:
Ao passear o olhar
Pela coisa amada.



Manuel Palhares

Odivelas, 14 de Fevereiro de 2006.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

TANTO DE MEU ESTADO ME ACHO INCERTO

Com todo o respeito, mas também com muita amizade e amor fraternal, aqui deixo este soneto de Luís de Camões, a todas as nossas amiguinhas que já foram e ainda são namoradas de algum felizardo.


TANTO DE MEU ESTADO ME ACHO INCERTO

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra chego ao Céu voando;
Nua hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar ua hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões



P.S.: Que neste dia recordem e renovem as juras que um dia fizeram!

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

NÃO...


Não, não, não,
Não quero
Pensamentos

Profundos.

Não, não, não,
Não quero ouvir,
Nem ler,
Nem pensar,
Nem ajuizar.


Deixo isso pois,
Para os pensadores,
Para os filósofos,
Para os profetas.

A mim,
Hoje e sempre,
Só me apetece
Brincar e sonhar!



Manuel Palhares

Odivelas, 13 de Fevereiro de 2006.

domingo, fevereiro 12, 2006

Novidades, Notícias, Novos Links


Meus caros amigos,

Após uns dias de descanso e a pôr o correio em dia, aqui estou de novo na vossa estimada companhia.
Quero começar por agradecer a todos aqueles que me visitaram, em particular aos que tiveram a amabilidade de deixar uma mensagem e/ou assinar o livro de visitas. A todos o meu muito obrigado.
No meu texto de apresentação, digo que o blog não é só meu, e pedia-vos para o construirem comigo.
Não o quero usar como palanque - qual caixa de sabão - para subir para cima dele e falar para a minha imagem virtual e invertida ao espelho e depois esperar muitas loas da vossa parte.
Quero, sim, aqui publicar os meus textos e artigos que possam ter interesse, mas, principalmente, globalizá-lo a quem não teve ainda a paciência de criar um.
Deste modo, destinei o último link à esquerda do blog, com o nome de Caixa do Correio para as Publicações dos Leitores , para
onde podem enviar os vossos artigos de opinião, que serão aqui publicados, como mensagens iniciais, e que terão os comentários que os visitantes houverem por bem fazer.
Aproveito esta oportunidade para vos apresentar os novos links do blog:

1 - Imprensa Internacional

a) - Corriere della Sera
b) - Folha Online
c) - Globo Online
d) - l'Humanité

2 - Imprensa Desportiva

a) - A Bola
b) - Jornal Record
c) - O Jogo

3 - Rádios e Televisões

a) - Antena 1
b) - Antena 2
c) - Antena 3
d) - Rádio Clube Português
e) - Rádio Renascença
f) - TSF Online
g) - RTP
h) - SIC
i) - TVI
j) - SIC Notícias


Para terem acesso a estes novos meios de comunicação que aqui anuncio basta clicar por cima dos seus nomes.
Com amizade,

Manuel Palhares

Odivelas, 12 de Fevereiro de 2006.

Como publicar um comentário no blog

Meus caros amigos,

Obrigado pela vossa visita ao blog.
Muitos amigos têm-me perguntado, por e-mail, como devem proceder para aqui publicarem os seus comentários.
Vou tentar explicar como podem enviar uma mensagem com sucesso.

1 - Escrevem o vosso comentário no rectângulo que está por baixo de "Leave your comment".

2 - Em seguida, por baixo de "Choose an identity", clicam em "Other" ou em "Anonymous" e ao fazerem isso, deixa de vos ser pedido o Username e a Password.

3 - Depois, escrevem no rectângulo que está à frente de "Word Verification", as letras que estão por cima desse rectângulo.

4 - Finalmente, clicam no rectângulo azul que diz "Login and Publish" e aparece-vos a vossa mensagem inserida nos comentários.

Está aqui, de boa vontade, o melhor que sei explicar. Espero que consigam.

Com amizade,

Manuel Palhares


Odivelas, 12 de Fevereiro de 2006.

Centenário do Nascimento do Professor Agostinho da Silva




Meus caros amigos,

Alertou-me a nossa amiga Mayra, sempre atenta lá longe no Brasil irmão, que no próximo dia 13 de Fevereiro, se comemora o 1º centenário do nascimento do grande pensador português Professor Agostinho da Silva.
Diz ela, a Mayra, no comentário que aqui colocou:



"...na próxima segunda feira, exactamente dia 13 de fevereiro, data esta que o Agostinho da Silva estaria completando 100 anos.Que bom seria se aqui no teu blog,falásemos um pouco sobre ele, concorda?Até junho/2006, uma extensa homenagem aí em Portugal está programada. Aqui, em Natal, estamos a organizar na Academia Norteriograndense de letras, ainda com data não prevista."

Aqui fica então a homenagem a esse grande português, entre outras coisas criador de universidades, à espera dos comentários que os meus amigos entedam por bem fazer.

Manuel Palhares

Odivelas, 12 de Fevereiro de 2006.

P.S. - Deixo-vos o link da Associação Agostinho da Silva onde poderão encontrar as Comemorações do Centenário de Agostinho da Silva:

http://www.agostinhodasilva.pt/

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Apresentação do Blog - Beira Meu Amor



"O que é um Blog?
A definição de Blog não é consensual. Um Blog é um registo cronológico e frequentemente actualizado de opiniões, emoções, factos, imagens ou qualquer outro tipo de conteúdo que o autor ou autores queiram disponibilizar. Existem muitos tipos de Blogs, ouve-se muitas vezes a expressão “Diário virtual” para descrever o Blog, o SAPO pensa que um Blog pode ser muito mais do que isso. Depende apenas e só do que o autor ou autores queiram que o seu Blog seja."

in Sapo.pt


Meus caros Amigos,

Meio envergonhado, apresento-vos o meu blog.
Incentivado pelos vossos amáveis comentários, nos vários sites das comunidades moçambicanas, quando ali publiquei as minhas histórias e os meus "poemas", resolvi, então, aqui reunir o que nestes últimos seis meses nelas escrevi.
A minha vida, já longa de 61 anos, está dividida, genericamente, em duas partes: até aos 30 anos vivi em Moçambique e há 31 anos que me radiquei na região da grande Lisboa, após o regresso de África.
O passado faz parte da minha vida e, não posso, nem quero, dela apagá-lo. Por isso o nome que resovi dar ao blog. Mas, Moçambique e a Beira continuam a existir e têm, por certo, direito a um futuro que se constroi todos os dias. O passado foi doce e bom. Façamos por merecer um futuro ainda melhor.
Quero-vos pedir o favor de construirem comigo este blog, fazendo os vossos comentários, se assim o entenderem, ao que eu publicar, mas, principalmente, publicando vós própios, aquilo que entederem ser relevante, no vosso ponto de vista.
As regras são as elementares: moral, ética, cidadania e direito à diferença.
Como diz a citação que encabeça este meu texto, um blog é aquilo que quisermos! Este estará sempre em constante actualização.

Com muita amizade por todos vós,

Manuel Palhares

Odivelas, 8 de Fevereiro de 2006.


* Imagem retirada de: http://www.loiclemeur.com .

sábado, fevereiro 04, 2006

A índica onda



No dia em que
Índica onda
Me possuiu
Eu estava ali
Deitado
Sozinho.

O sol
Aquecia-me
O corpo
Quase nu
Acariciado
Por brisa morna
Com afrodisíacos
E exóticos cheiros.

Que sensação
De bem estar
Que lânguido prazer
Indescritivel
Podê-lo
Descrever
Podê-lo
Aqui dizer.

Foi assim que ela
Me encontrou
Sem que desse
Pela sua presença.

Acariciou-me
Todo o corpo
Beijou-me
Ardente
Com sofreguidão
Alagou-me
Possuiu-me
Com louca
E ardente paixão.

Quando saciada
Exausto
Me abandonou,
Louca de ciúmes,

Não quis partir
Sem com renda
De branca espuma
Meu corpo cobrir.


Manuel Palhares

Odivelas, 28 de Janeiro de 2006.


* Imagem retirada do blog: http://palavrasdealgodao.blogs.sapo.pt/ .

Quase louco


Quase louco,
Estou ansioso
Por partir.
Mas então,
Para onde
Hei-de eu ir?

Que importa
Isso agora?
Só sei que parto!
Vou-me embora,
Para outro sítio,
Para outro lugar.


Não importa
O que tenho.
Tudo vos deixo,
Tudo vos dou.
Nada preciso,
Para onde vou.

Larguem-me!
Deixem-me!
Parto.

Sem amarras!
Sem pesos!
Parto.

Livre de leis!
Livre de regras!
Parto.

Libertem-me!
Agora!
Já!

Não, não,
Não desisti
De lutar.

Vou apenas,
Enlouquecer,
Noutro lugar.


Manuel Palhares

Odivelas, 21 de Janeiro de 2006.

Oração


Hoje estou farto e estou cheio,
Cansado de ouvir coisas tristes.
Colocam-me a mim de permeio,
Entre vidas que são tão infelizes.

Gosto imenso com todos me dar,
Mas quando exerço esse direito,
Vêm para cima de mim derramar:
Desconsideração, ódio e despeito.

Meu Deus, Senhor, meu protector,
Ajuda-me nesta hora de amargura.
Peço, suplico-Te até, paz e amor,
Para quem vive no meio da tortura.

Socorre, com bondade, com doçura,
Almas sem sossego e em sofrimento.
Leva-lhes ao doente peito a candura,
Que as alivie de tanto afrontamento.


Manuel Palhares

Odivelas, 19 de Janeiro de 2006.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

A loucura da consciência


Está louco!
É o que me dizem
Ao verem-me passar.

E porquê?
Porque será
Que me tratam assim?

Será porque mantenho,
Ainda apurados, os sentidos
Com que viemos ao mundo?

E porque não consigo
Ficar indiferente
Ao sofrimento de tanta gente?

Acham-me incómodo,
Acham-me convencido,
Chamam-me louco e diferente.

Ah! Se soubessem,
Como a mim, por vezes,
Me apetece ser,
Realmente, um demente!


Manuel Palhares

Odivelas, 15 de Janeiro de 2006.

E depois...


“Olha, fala com ela!” – tinha-me dito a minha mãe. Mas falar com ela como?! Ali no cinema ou na praia, sempre rodeada daqueles tipos parvos, que não saíam de ao pé dela?! Ah! Que raiva eu sentia daqueles tipos todos, que passaram a ser seus colegas na escola. Que coisas eu imaginava gostar de lhes fazer! Espero que os deuses já me tenham perdoado por tão pecaminosos pensamentos. Mas é a tal coisa! Não era eu que os queria fazer desaparecer da face da Terra – era o meu pensamento! Que podia eu fazer para evitar esse pensamento amigo?! Nada, porque me convinha, me amenizava a dor e tornava menos turva a visão. Por vezes, o meu pensamento, era tão meu amigo, que arranjava formas particularmente sádicas de mandar desta para melhor aqueles tipos que borboletavam à sua volta, que me deixavam bastante satisfeito e sorrindo de prazer.
- Palhares! Eia Manuel Palhares! – alguém chamava por mim. Era o Silvestre.
- Então pá, estás bom? – exclamou ele, sempre muito bem disposto e sempre louco por experiências e aventuras.
- Olá! – respondi-lhe eu vagamente.
- Então pá, que é isso? Aconteceu-te alguma coisa? – perguntou ele sempre com aquela entoação bem disposta, que me irritava quando eu andava nas minhas crises existenciais. - Olha, queres saber o que descobri?! - disse ele sem esperar pela resposta. - Ali, ao pé do campo de basquetebol do Desportivo da Beira, alugam motorizadas Solex por dez paus a hora! É uma senhora quem as aluga. O mínimo que ela aluga são quinze minutos, por dois escudos e cinquenta centavos. Queres ir lá experimentar?
- Ó pá, eu não tenho nem uma quinhenta comigo! – respondi-lhe.
- Não faz mal. O meu pai hoje deu-me dez paus e ainda tenho cinco escudos.
Podíamos ir até lá e cada um andava quinze minutos! Que dizes?
Lá chegados, subimos meia dúzia de degraus, para bater à porta daquele rés-do-chão elevado.
- Olá Manel, estás bom? – ouvi eu, muito ao longe, perguntar a menina e agora linda rapariga, que era a razão de todos os meus tormentos. O meu coração saltava-me dentro do peito, a boca ficou-me seca e senti um calor enorme na cara e nas orelhas.
- Então pá, não ouves a miúda a perguntar se estás bom? – protestou o Silvestre, que nestas coisas de miúdas estava sempre muito mais à vontade do que eu, porque tinha irmãs. - Então já se conhecem? Muito bem! – que raiva eu tinha daquele à vontade dele com as miúdas.
- Já! – repondeu ela, dando uma gargalhada cristalina e mostrando aqueles lindos dentes que tinha.
- Olá, boa tarde. – balbuciei eu. - Não sabia que moravas aqui. Este meu amigo descobriu que aqui alugam motorizadas Solex. – justifiquei-me eu por estar ali, quando no fundo da minha alma, era o que eu mais desejava na vida.
- É verdade, o meu pai resolveu comprar duas motorizadas Solex e alugá-las. Querem alugar uma ou as duas?
- Uma! - disse eu.
- As duas! – proferiu o Silvestre. - Parece que estás parvo! Então eu não te disse que tinha dinheiro para andarmos os dois?! – eu, naquela altura, apeteceu-me matar o bom do Silvestre com requintes de malvadez. Ele tinha acabado de me tirar a possibilidade de estar ali a falar com ela e de tê-la só para mim durante meia hora.
Depois aluguei muitas vezes as motorizadas Solex, sempre por períodos de quinze minutos. Muitas vezes sem sair da rua. Quando ela ficava na varanda e me sorria, enquanto eu passava para cima e para baixo. Até cheguei a treinar basquetebol, no Desportivo da Beira, só para ter a oportunidade de a ver mais vezes e falar com ela.
Depois, depois, num carnaval, conheci uma outra rapariga que me deu fortes razões para eu começar a alugar cada vez menos as Solex.


Manuel Palhares

Odivelas, 9 de Janeiro de 2006.


* Gravura publicada pela Gabi na comunidade de Quelimane.

Era uma vez..


Era uma vez, há muito, muito tempo, que nem já dá mais para contar, no planeta Terra, um menino e uma menina, que viviam num sítio maravilhoso, misterioso, quase mágico e cheio de encantos: os cheiros, as cores, a luz, os sons, a terra, o ar e o mar – ah! o mar! – eram diferentes dos outros lugares. Essa terra ficava na costa oriental de África, entre um rio que se chamava Maputo, ao sul e um outro rio, que se chamava Rovuma, ao norte. Essa menina e esse menino viviam, mais ou menos, no meio dessa terra, num lugar chamado Sofala, ali mesmo junto ao mar.
Quando eram pequenos e iam para a escola primária, a menina, que morava um pouco mais longe que o menino, ia de bicicleta e encontrava sempre o menino, que ia a pé para a escola, pelo caminho. Ao chegar ao pé dele descia da bicicleta e acompanhava o menino, empurrando a bicicleta, até à escola, conversando com ele e rindo muito, com um sorriso alegre e lindo. O menino ficava sempre muito contente por encontrar a menina e ela o acompanhar, mas era um pouco envergonhado e falava pouco. Praticamente, limitava-se a responder às perguntas da menina, que falava muito.
Às vezes, a menina queria que o menino andasse na sua bicicleta e ficava toda contente por o menino aceitar rodopiar, à sua volta, à medida que se dirigiam para a escola. E os anos foram passando, a escola primária acabou, e, na continuação dos estudos, foram para escolas diferentes e já não se viam todos os dias.
Passaram a encontrar-se, aos fins-de-semana, na praia e no cinema, e a menina deixava logo os amigos com quem estava e vinha falar com o menino. O menino não sabia porquê, mas ficava muito contente por ver a menina e ela vir falar com ele. Ela continuava alegre, risonha e faladora, mas agora, ao falar, às vezes, tocava no menino com as mãos, o que lhe provocava a ele uma sensação muito agradável. E assim foi durante uns anos.
Até que o menino e a menina cresceram e já não eram mais meninos – eram uma linda rapariga e um rapaz que já tinha mudado a voz, adolescentes, ambos na casa dos quinze, dezasseis anos. A partir dessa altura, a rapariga, sempre que se encontravam, já não deixava o grupo de amigos para vir falar ao rapaz, como sempre fizera até aí e limitava-se a sorrir e a fazer-lhe um aceno com a cabeça. E isto deixou o rapaz triste e furioso com os rapazes do seu grupo.
- Que é que tens filho? Manuel Alberto, estou a falar contigo! Pareces que não estás cá. Que se passa filho, sentes-te doente?
- Hum?! - Que foi, mãe?
- Hum?! Isso são modos de me responderes?! Estava a perguntar-te se te sentes doente?
- Ó mãe, desculpe, mas eu nem a ouvi. – exclamei eu, deixando escapar um suspiro.
- Não, não me sinto doente. Estou bem.
- Então o que é que se passa contigo, para estares aqui a tarde toda, deitado no sofá, a olhares para o tecto?
- Não se passa nada mãe.
- A mim não me consegues enganar. Aí anda moura na costa!
- O quê?! Ó mãe, por favor, não se ponha a inventar.
- A inventar, eu?! Está bem, está bem! Olha, fala com ela! Que, assim, até podes ficar doente – disse a minha mãe afastando-se a rir, o que me provocou um rubor nas faces, misto de vergonha e cólera.



Manuel Palhares

Odivelas, 8 de Janeiro de 2006.

Como eu gostava


Como eu gostava,
Como os poetas ser.
Como eu gostava,
Como eles:
Saber escrever,
Saber dizer!

Só e apenas,
Para te descrever:
A ti, e ao amor
Que sinto por ti.


Manuel Palhares

Odivelas, 6 de Janeiro de 2005.

À minha volta


À minha volta
Sinto fel e ódio
Não vejo amor
Nem compreensão.

Vejo o desprezo
Que destila inveja
Nos olhos daquele
Que é meu irmão.

Assim sem despeito
Continuo andando
Pela estrada da vida
Procurando encontrar,

Quem queira afagar
Esta dor enorme
Que trago comigo
Cá dentro do peito.


Manuel Palhares

Odivelas, 28 de Dezembro de 2005.

As meninas que perdi


Quando eu tinha doze, treze anos, uma altura houve, em que sofri muito.
Quase todas as minhas amigas, que eu conhecia desde os meus seis anos, deixaram de querer brincar comigo, como o tinham feito até ali. E eu, triste, fartei-me de sofrer, sem perceber o porquê. Que mal lhes tinha eu feito? No espaço de mais ou menos um ano, tinham deixado quase todas de querer brincar comigo. Agora diziam-me que já não eram meninas. Que agora já eram raparigas e que não podiam mais brincar comigo, do mesmo modo como o tinham feito até ali! Será que havia alguma doença que dava só nas meninas com aquela idade e que eu não conhecia? Ná, não podia ser! Nunca tinha ouvido falar. Mas o que é que se passava?
Elas que nos últimos seis anos tinham brincado comigo a tudo: aos cowboys, aos índios, às escondidas, ao berlinde, ao tic-tac e ao naigode. Tínhamos patinado, jogado hóquei, futebol, nadado e mergulhado juntos. Algumas houve que, às vezes, até me ganhavam nos jogos ou nas corridas de bicicleta – o que me deixava furioso. Agora, de um momento para o outro, diziam que já não eram meninas! Que agora passaram a ser raparigas! Eu cá não lhes achava diferença nenhuma desde os seis anos até agora. Talvez, à medida que cresciam, iam ficando mais teimosas e vaidosas, mas isso era só às vezes. Em vez das tranças ou do rabo de cavalo, algumas, passaram a gostar de usar uma bandelete, que passavam a vida a tirar e a colocar de novo na cabeça, à medida que iam mexendo nos cabelos e revirando os olhos. Até àquela altura, a única mudança que eu tinha reparado nelas, é que tinham deixado de falar tanto, de gritar, de dar pontapés, de me baterem, arranharem e até morderem, como o fizeram até aos nossos dez, onze anos. Claro que também passaram a falar muito mais entre elas, a dizerem segredos umas às outras e rirem sem motivo, mas aquilo eram coisas parvas de meninas. De resto não lhes notava mais nada de diferente, excepto que de vez enquando me olhavam de uma maneira esquisita e piscando muito os olhos, que até parecia que lhes tinha entrado alguma coisa para a vista. A partir dessa altura, passaram a reunirem-se só umas com as outras e até me olhavam com um certo desdém e mal me cumprimentavam. Agora só olhavam e falavam com rapazes muito mais velhos que eu, assim com quinze e dezasseis anos.
Para matar as minhas mágoas, nessa época, fartei-me de praticar desporto, correr e nadar, de manhã até à noite, e durante uns tempos, não quis mais ouvir falar naquelas ingratas, que me tinham abandonado e trocado por rapazes mais velhos.
Comecei a sentir que havia coisas em mim, no meu corpo, que tinham mudado. A minha voz tornara-se esquisita: por vezes grossa, outras fina. O meu pai teve que me ensinar a rapar os pêlos que me tinham passado a aparecer na cara. Os meus movimentos tornaram-se descontrolados e até a minha mãe me dizia para ir para o quintal, porque lhe estava sempre a partir coisas ou a desarrumar tudo em casa. Quando via passar as raparigas, comecei a sentir na minha cara e no meu corpo um calor estranho. Naquela altura de abandono, parecia que só o meu pai me compreendia e andava todo satisfeito com as minhas mudanças. Estava sempre a convidar-me para sair com ele e dizia-me que me queria explicar certas coisas da vida, que eu já estava a ficar um homem e que estava na altura de termos uma conversa de homem para homem. Eu ouvia aquilo tudo, sem perceber lá muito bem o que é que ele queria dizer. E o tempo foi passando.
Só os meus cães me percebiam bem. Esses sim, foram os únicos que se tinham dado comigo sempre do mesmo modo: sempre meus amigos e sem mudanças de comportamento. Em certas alturas, quando me viam sentado no chão, muito quieto e pensativo, a olhar para o céu, iam bucar uma bola de ténis que colocavam junto aos meus pés, desafiando-me para a brincadeira, rosnando e ladrando. E como eu continuava sem me mexer, lambiam-me e gemiam por me verem assim. Nunca lhes agradeci, devidamente, tanta dedicação e tanto amor.
- Manuel Alberto, telefonou a Belinha para te convidar para ires lá a casa no próximo sádado, por volta das quatro horas. É a festa dos seus dezasseis anos.
- Tem a certeza de que ouviu bem, mãe? Essa peste já há mais de três anos que quase
não me fala! Não me liga nada!
- Claro que tenho a certeza. Até falei com a mãe dela, que me disse que tinha muito gosto em que fosses. Viu-te no outro dia no cinema e disse-me que estavas muito bonito!
- Ó mãe, por favor, deixe-se dessas coisas. Todas as suas amigas me acham engraçado, ou jeitoso, ou bonito. Ainda se fossem as filhas! – disse eu baixando a voz.
- O quê? O que foi que disseste? – perguntou a minha mãe.
- Disse que a mãe é que tem que lhe comprar a prenda. Assim, se ela desdenhar, eu digo-lhe logo que foi a mãe que comprou. – respondi eu, fugindo à resposta sobre a observação insolente que tinha feito.
- Olá Manel, entra. – disse-me a Belinha, toda sorridente, enquanto me dava um beijo na cara. Eu fiquei paralizado. Onde é que estava a menina que eu conheci desdentada e que depois, durante seis anos, tinha sido a minha companheira de brincadeiras, jogos e aventuras? Aquela menina morena, meia Maria Rapaz, que quando eu, sem querer, a magoava, gritava e cheia de fúria me batia, arranhava e mordia? Perante mim estava uma rapariga linda de morrer. Com um bonito cabelo preto comprido, que lhe caía sobre os ombros, com uns olhos verdes e doces, um sorriso de encantar, mostrando uns dentes brancos de fazer inveja às estrelas de cinema, um vestido azul celeste muito bonito, que lhe descia um pouco abaixo dos joelhos e que lhe fazia realçar, discretamente, o colo. As suas pernas eram lindas e muito bem torneadas. Calçava uns sapatos brancos e rasos e as meias também eram azul celeste como o vestido. - Entra Manel. – tornou ela a dizer, dando uma cristalina gargalhada que me soou a música celestial, perante o meu ar apatetado que parecia tanto a divertir.


Manuel Palhares

Odivelas, 15 de Dezembro de 2005.

Por aí...


- Boa tarde! Dá-me liçença? – pedi eu à pessoa que me impedia, no exterior, o acesso à porta da Repartição de Finanças. A pessoa que era alta e de cabelos muito compridos virou-se para mim, lentamente, e pude reparar que para além dos cabelos compridos, também usava umas enormes barbas de um branco amarelado. Numa rápida observação pude verificar que estava perante aquilo a que, à primeira vista, me pareceu um excluido da sociedade, um sem abrigo. Observei que por trás dele estavam uns sacos de plástico de supermercado e nada mais. Trazia vestida uma longa gabardine de cor indefinida, entre o cinzento e o castanho escuro, abotoada à frente.
- Está com muita pressa? Também comprou o passeio público? – perguntou-me com uns olhos vazios, onde não se liam nenhum sinal de emoção – Verifiquei que não valia a pena argumentar e esperei que ele se afastasse e me deixasse entrar. Eu estava com alguma pressa porque estava quase na hora de fechar e era o último dia para pagar uma determinada contribuição.
Ao regressar de novo à rua, reparo que a pessoa que eu pensava ser um sem abrigo, se tinha afastado para o fundo da fachada do edifício e sentado em cima de uns cartões, com alguns sacos de plástico à sua volta. Tinha-me ficado no ouvido aquela pergunta – “Também comprou o passeio?” – que não me irritou, mas alertou para a ironia com que foi feita. Hesitei em me dirigir a ele porque sei que estas pessoas não são dadas a muitas falas e perguntas. Mas o impulso foi mais forte que a razão e sem saber nem bem nem mal o que ia fazer, fui falar com ele.
- O Senhor desculpe! – disse eu. Ele olhou para mim e interrogou- me:
- Também o estou a incomodar aqui? Olhe, vai ter que ter paciência porque estou muito cansado e com fraqueza e daqui não saio. Só se me pegarem ao colo, levarem para o cimitério e enterrarem vivo. Assim como assim, eu o que estou mesmo é à espera da morte. Mas como nunca tive tendências suicidas têm que esperar que ela me venha buscar. – Eu estava incomodadíssimo e mil vezes arrependido de me ter dirigido a ele. Por que motivo, mais uma vez, não dei ouvidos à minha razão que nestas coisas é tão sábia e cobardemente me aconselha a fugir destas situações embaraçosas?!
Eu não sou perfeito, estou cheio de defeitos e mesmo que me sobrassem ainda muitos anos de vida – o que não acredito ser o caso – para a penitência dos meus pecados, eles não eram suficientes para me penitenciar por ter passado parte da minha vida a olhar para o lado oposto da miséria e da fome que sempre vi por toda a parte. Mas, se há uma coisa em que eu ganho à minha razão, é em teimosia. Eu não sou inteligente, mas sou deveras persistente na minha teimosia, o que me tem valido amargos de boca em muitas circunstâncias, mas me deixa com aquela, talvez falsa, noção de liberdade.
- Não, não me está a incomodar nada, eu há pouco é que estava com receio de já não apanhar os serviços abertos. Desculpe se o aborreci.
- Não me aborreceu nada. Mas sabe, já estou farto de pedir desculpa por existir e de ocupar espaço na via pública. De ser olhado como um replente leproso putrefacto que pode infectar tudo e todos. Eu gosto de olhar as pessoas nos olhos, para lhes roubar um pouco da vida que já não se vê nos meus. Nesse aspecto sou um pouco vampiro da vida e emoções que vejo nos olhos dos outros. Mas não tenho remorços disso. É o preço que têm que pagar por insistirem em viver nesta sociedade egoísta e hipócrita. Dão umas esmolas para comprarem boa consciência, mas não resolvem o assunto porque insistem neste consumismo desenfreado e cavam todos os dias ainda mais as diferenças. Este sistema de sociedade já faliu e é só deixarem de dar, todos os meses, balões de oxigénio ao vosso sistema se segurança social e não há reformas nem subsídios de desemprego para ninguém. Aí é que vai ser um sarilho. Os que são como eu vamos a passar a ser a maioria e vós, os outros, vão-se aguentar enquanto não esgotarem as vossas poupanças. Aliás, se não estivessemos na zona euro, se pudessemos desvalorizar a moeda e mexer na taxa de juros, já há muito que tínhamos estoirado e este país era um enorme asilo.
- Mas o senhor a falar dessa maneira, vê-se que tem instrução, que tem cultura. Como foi possível chegar a esta condição?
- Olhe, podia estar aqui a dar-lhe muitas explicações para contornar o asunto, mas digo-lhe apenas que me antecipei ao que vai acontecer a muitos de vós.
- O senhor não vai querer que eu acredite que o país vai passar a viver na rua, só porque algumas pessoas tiveram os seus azares e encontram-se, infelizmente, numa situação como a sua?!
- Eu não quero que acredite em nada. Mas pensa que os sem abrigo são só os que vivem na rua como eu? Não, os sem abrigo são todos aqueles que vivem com reformas inferiores ao salário mínimo e que fazem um esforço enorme para fingirem que são dignos, mas que são tratados com a groceria de um país que deixou de respeitar os seus velhos. Eu ao menos não perco energias.
- O senhor permite-me que eu o ajude com qualquer coisa? Que lhe pague o almoço e o jantar de Natal num restaurante? – perguntei eu.
- Natal, não sei o que é, pois tenho todos os dias fome. E quanto a pagar-me as refeições do próximo dia vinte e cinco num retaurante, não vale a pena estar-se a incomodar, pois não há nenhum restaurante que me deixe lá entrar com este aspecto.


Manuel Palhares

Odivelas, 9 de Dezembro de 2005.


* Image of homelessness from the Italian blog Moving & Learning.

O Ladrão de Fruta


Meus caros amigos,

Como estamos no Natal, achei que esta era a ocasião de vos fazer uma confissão, na esperança de, apanhando-vos mais benevolentes, obter, pelo menos, a compreensão e o perdão de alguns.
Os meus safaris frutíferos pelos quintais do bairro da Ponta Gea, na cidade da Beira, em Moçambique, eram aventuras perigosas que acabavam quase sempre comigo todo sujo e besuntado, arranhado, mordido, sangrando e com a roupa rasgada em algum lugar. Já estão a ver que era coisa perigosa, não é verdade? Mas organizemos as coisas que assim não é modo de contar.
Quando eu era pequenino, por volta dos meus onze, doze anos, uma altura houve em que, fui, tenho que confessar, amigo do alheio, um pequeno ladrão de fruta dos quintais dos vizinhos. Não eram roubos por acaso, tentações de momento, eram mesmo premeditados. Saía de casa preparado para o safari, com um pau comprido com um pequeno gancho na ponta, uma fisga e um saco de pano preso no cinto.
Chegada a época das goiabas ou das maçanicas – vulgo maçãs-da-índia – eu não resistia. Chegavam-me às narinas os seus cheiros. Vinham-me os apetites e toca de ir “caçar”. Geralmente estes roubos eram praticados depois do almoço, à hora de maior calor, em que quase todos estavam recolhidos a descansar.
Dirigia-me à garagem da minha casa que foi o meu sítio secreto ao longo dos anos. Era, na minha imaginação, o equivalente à gruta secreta do Batman, o meu laboratório de reflexão e experiências, onde eu construia ou guardava os objectos que faziam parte do meu mundo e que eram importantes para a minha felicidade. Estava lá guardado o tal pau comprido, ao qual tinha fixado, numa das extremidades um arame grosso em forma de gancho, de modo a pudê-lo encaixar nos ramos mais altos das goiabeiras e maçaniqueiras e assim os dobrar e baixar e conseguir chegar à fruta.
Saía de casa e rua acima, rua abaixo, fazia o reconhecimento do terreno. Àquela hora o dono da casa a visitar já estava no trabalho de novo, mas restava ainda lá muita gente: a mulher, os filhos, os empregados e, o que era pior, os cães. Tinha que ter muito cuidado. Medir a altura dos muros e estudar os quintais contíguos por onde podia escapar em caso de fuga. Eu era magro e ágil e sempre fui um óptimo trepador e corredor. Definida a coutada de caça, lá saltava eu o muro para os domínios do alheio e toca a iniciar a tarefa da apanha da fruta que ia metendo no saco que levava comigo e a qual ia provando para lhe avaliar a qualidade e o sabor.
- Minino, minino – chamava alguém por mim. Eram os empregados que por vezes me apanhavam. – Não pode vir aqui roubar fruta assim. Não está certo. Vai embora, senão eu vai chamar a senhora.
- Deixa-me lá levar algumas. Têm aqui tantas – dizia eu roendo uma pêra goiaba ou uma maçanica, ainda meio verdes (as que eu gostava mais), encavalitado no cimo das respectivas árvores.
- Não pode minino. Depois a senhora e o patrão vai dizer que foi nosso que comeu. Vá, desce da árvore e leva essas que já tem no saco e vai embora.
- Está bem, está bem – retorquia eu fazendo-me de muito aborrecido e saindo do quintal pelo portão que o empregado entretanto me tinha aberto.
Isto era considerada uma excursão quase de sucesso. De sucesso era não ter sido apanhado. De menor sucesso ainda era quando os empregados eram menos compreensivos e dialogantes, me agarravam e levavam à presença das patroas e eu levava raspanetes humilhantes e enormes, de me fazerem corar. Mas a maior das humilhações para mim – que deviam ser estas últimas – não o eram. A maior das humilhações era ser apanhado pelos cães que me retinham no cimo das árvores e não me deixavam descer, em casas em que não apareciam nem empregados nem patrões. Com a fisga e com pedritas ou maçanicas (maçãs-da-índia) verdes e duras, atingia os cães do cimo das árvores e cutucava-os com o pau com o gancho, o que os punha mais à distância, mas ainda os enfurecia mais. Nessas ocasiões havia que tentar a sorte e tirar as medidas dos ramos ao chão e do chão ao muro mais próximo, pedindo aos deuses muita sorte. É óbvio que os cães me mordiam e rasgavam a carne e a roupa, me arranhava e magoava ao saltar os muros e depois ainda tinha que inventar uma história convincente para contar à minha mãe. Mas quando tudo corria bem empanturrava-me e por vezes lá vinham as dores de barriga devido ao facto de gostar desta fruta meio verde.
Passados muitos anos, mais de dez, com quase 23 anos, fui com a minha mãe comprar uma camisa para o meu pai, a uma loja que ficava no Prédio Empório, na fachada que dava para o Cinema Novocine. A loja pertencia a um casal muito simpático e já de alguma idade. Quem nos atendeu foi a senhora que nos foi mostrando camisas e falando com a minha mãe e comigo sempre com muita delicadeza e simpatia. Até que, a certa altura, com um sorriso doce, se vira para mim e diz:
- Está um bonito rapaz! – aí eu também sorri, babado, agradecendo. Eu sempre fui muito elogiado por senhoras de meia idade, passe a imodéstia. Com as meninas da minha idade é que os elogios rareavam mais.
- Muito obrigado – agradeci eu o elogio. - É a simpatia da senhora que a faz falar assim – acrescentei eu todo embalado.
- Mas saiba – disse a senhora – que houve um dia, há muitos anos atrás, que não gostei nada de uma coisa que me fez.
- Eu, minha senhora? Deve-me estar a confundir com outra pessoa – balbuciei eu, tentando a “cem à hora” fazer múltiplos “flashbacks” na minha vida, para ver se me recordava do que se tinha passado entre mim e aquela simpática senhora e que a tivesse desagradado.
- Por certo já não se lembra – afirmou a senhora. - Mas houve um dia em que fiquei muito arreliada e zangada consigo.
- Comigo, minha senhora? – retorqui eu, olhando interrogativo para ela e para a minha mãe, a qual também já mostrava um semblante apreensivo.
- Mas não fiquem assim – acrescentou a senhora vendo a nossa apreensão. - Já foi realmente há muitos anos. E virando-se e falando mais para a minha mãe, explicou:
- É que este bonito rapaz que a senhora aqui tem, gostava muito das goiabas e das maçanicas do meu quintal quando era miúdo. E, se ele mas fosse pedir, eu dava-lhe as que ele quisesse. Mas o que me arreliou foi um dia em que, numa das suas visitas ao meu quintal, me partiu dois ramos de árvores de fruta. Mas isso foi há mais de dez anos. Ele era pequenito e agora está um homem. Ele ainda gosta de goiabas e maçãs-da-índia? – perguntou a senhora, sorrindo de prazer, pela vingança consumada no relato que acabara de fazer à minha mãe.
Meus caros amigos, socorro, tirem-me deste sufoco. Só eu é que fui apanhado? Só eu é que me portei mal? Não aconteceu com alguns de vós nada de parecido ou equivalente? Vá lá, sejam solidários. Agora, a meio século de distância, já não é pecado e podem confessar. A vós, não vos custa nada e eu ficava mais aliviado. Vá lá, coragem.


Manuel Palhares

Odivelas, 5 de Dezembro de 2005.

A estátua


Como alguém
Já disse
Está tudo
Naquele
Bloco de granito.

Está guardado
Escondido
Para que
Não se possa
Estragar.

Estão escondidas
Imagens
Belas
Que só pintor
Em suas telas
As podia
Imaginar.

Ali estão
Sentimentos
Lindos
Ternuras
E afectos
Vários.

Depois
Vem
O escultor
Com o martelo
E com o cinzel
E destapa
O que
Se não vê.

Só isso
Nada mais
Tira a roupa
Que a tapava
A beleza
Já lá estava.


Manuel Palhares

Odivelas, 4 de Dezembro de 2005.

Natal Virtual



Estamos todos num salão de festas enorme. Daqueles que foram feitos para receber convidados de casamentos reais ou de filhos de presidentes da república no activo. O salão está decorado com motivos alusivos ao Natal e Fim do Ano que se aproximam. A luz envolvente é indirecta sem ferir os olhos. Somos de facto muitos. O barulho também. A música ambiente é suave, envolvente e relaxante. O ambiente é de festa. Estamos no Natal. Num natal que quisemos comemorar em conjunto. Todos. Os de várias gerações: os mais e os menos novos. Estava na altura de nos reunirmos para nos conhecermos fisicamente e esta altura do ano era a ideal.
Sim, porque muitos de nós já nos conhecemos. Já nos conhecemos por fotografia. Já temos trocado mensagens nas diferentes comunidades por onde navegamos e correspondido por e-mail. Já discutímos e compartilhámos ideias e até já falámos, em tempo real, pelo MSN-Messenger ou pelo Skype. Já nos acompanhámos uns aos outros na alegria do nascimento de um filho, sobrinho ou neto, ou na tristeza da partida de um familiar ou de um amigo. Colectivamente, já nos rimos em vários chats. Já apreciámos a prosa, a poesia, os blogs e até os livros que alguns vão publicando. Já temos discutido, com mais ou menos calor – mas com que calor por vezes – assuntos dos mais variados, levantado grandes polémicas, cada um esgrimindo as suas ideias e defendendo como sabe e pode os seus pontos de vista. Mas nunca tínhamos estado, assim, fisicamente, no mesmo lugar, na presença uns dos outros. O nosso conhecimento e relacionamento era, até hoje, apenas aquele que é permitido aos que navegam na net, aos internautas: virtual.
Cruzamo-nos uns com os outros, miramo-nos de alto a baixo, sem pudor nem cerimónias, olhamo-nos nos olhos, à procura de um sinal que nos dê uma pista de quem será aquela pessoa que está a passar por nós e todos trazemos nos lábios um sorriso de delicadeza, de convite à paz, à boa disposição, à solidariedade, à fraternidade.
O salão, enorme como já disse, tem uma imensidade de mesas redondas, onde estamos agrupados conforme a região da nação de onde éramos oriundos. Todos, ou quase todos, temos bilhete de identidade e passaporte portugueses, mas não é este o país a que pertence a nossa alma. Somos um pouco ciganos, somos portugueses sem pátria. Ao fundo do salão há um palco, onde amigos, nossos conhecidos desde a infância e adolescência, tocam músicas que nos fazem recordar um passado comum e alegram o nosso coração. Os grupos que se formam a toda a volta do salão são numerosos, os flashes das máquinas fotográficas não param de disparar. Todos se querem fotografar na companhia de amigos, já conhecidos por serem da mesma região e idade, ou por, finalmente, terem encontrado o amigo que até àquela altura era apenas virtual.
- Amigos! Amigos! Pedia um pouco de silêncio e a vossa atenção, por favor. – Um homem de cabelos brancos, em cima do palco, dirigia-se a nós de microfone na mão.
- Certamente que a maioria não me conhece. Eu sou o M.A. , o M. Sou eu um dos que vos “dá” música, daquela que ouvíamos lá na terra que estamos aqui hoje a homenagear com esta nossa reunião. – a salva de palmas que se ouve é estrondosa. -Bem, sou eu e, hoje, a nossa banda residente, conduzida pelo nosso conhecidíssimo “maestro” G.. – outra salva de palmas enorme. - Pois, meus amigos, estamos todos de parabéns, por termos levado avante esta iniciativa que finalmente hoje passa a ser uma realidade. Apesar de todas as nossas divergências, ao longo do tempo, é com uma felicidade indescritível que olho para estas centenas de amigos aqui reunidos. – a ovação é de novo ruidosa e imensa. - Esperamos, todos, que hoje seja uma noite única, para recordarmos até ao fim das nossas vidas. Para não vos maçar muito, porque hoje só queremos alegrias, vou apenas dar as boas-vindas às diferentes províncias aqui representadas, nomeando-as. Ao saudar cada uma das províncias, estou também a saudar, como é óbvio, todas as suas cidades, vilas e lugares, aqui representados por vós, assim como todas as suas comunidades cibernéticas que foram o alicerce para que este encontro se tornasse nesta realidade. – muitos aplausos de novo se fazem ouvir.
- Peço ao maestro um pequeno rufar de tambor e uma salva no prato grande da bateria, antecedendo o nome de cada província. Então aqui vai: Boa noite Maputo! ; Boa noite Gaza! ; Boa noite Inhambane! ; Boa noite Sofala! ; Boa noite Manica! ; Boa noite Tete! ; Boa noite Zambézia! ; Boa noite Nampula! ; Boa noite Cabo Delgado! ; Boa noite Niassa!.
É difícil descrever o que se está a passar, à medida que vão sendo nomeadas as diferentes províncias. Palmas, alegria, gritos, saltos, assobios, choro, lágrimas e sorrisos, há de tudo um pouco. As pessoas estão possuídas por uma euforia colectiva. Abraçam-se, beijam-se, riem e choram ao mesmo tempo. Os flashes disparam em todas as direcções. É uma alegria impossível de descrever em palavras, porque não podemos lá pôr nem os ruídos, nem os cheiros, nem o brilho dos olhos, esses representantes da alma. Todo o salão é um caleidoscópio de combinações e coloridos indecritíveis. Atiram-se serpentinas, confetis, balões e flores por todo o lado...
- Amigos, amigos, só mais uma coisa. O jantar vai ser servido já em seguida. Depois, ao longo da noite, para além do nosso conjunto, teremos aqui amigas e amigos que nos virão ler pequenas prosas, dizer poesia, cantar e contar anedotas. Que esta noite seja, por uma vez, uma noite de tolerância e de benevolência, em que todos vamos aceitar o direito à diferença que existe em cada um de nós, efim, uma noite inesquecível. Para todos vós e para os vossos familiares e amigos: muita saúde, muitas felicidades e muito amor. Que a paz more nos vossos corações. Um Feliz Natal e um próspero Ano Novo de 2006.


Manuel Palhares

Odivelas, 1 de Dezembro de 2005.


P.S. – Aproveito esta oportunidade em que o meu criador aqui vos deixa mais um dos seus sonhos, mais uma das suas utopias, para eu também, vos vir agradecer toda a tolerância, empatia, companheirismo, cumplicidade e amizade que tiveram para comigo ao longo do ano que agora está a acabar. Não vou nomear ninguém, mas acreditem que os vossos nomes me percorrem a memória e moram no meu coração. Muita saúde, muita paz, muito amor e muitas felicidades, para todos sem excepção e também para os vossos familiares e amigos. Um muito Feliz Natal e um muito próspero Ano Novo de 2006.


Manuel, o alucinado internauta

O Congresso - as consequências


Meus caros amigos,

Só quase ao fim de uma semana é que consigo estar de novo aqui em casa a falar convosco. Estou todo dorido e ainda debaixo do efeito de sedativos para as dores físicas e mentais que ainda me afectam. Portanto, se no decurso desta nossa conversa eu não parecer estar no meu perfeito juízo, dêem-me um desconto e pensem que eu não sou assim e que tudo isto é efeito dos remédios.
Mas afinal o que é que se passou comigo, estarão alguns de vós a perguntar, não é verdade? Eu conto, eu conto.
Como sabem a semana passada sonhei que tinha havido um congresso das diferentes comunidades moçambicanas, com um único ponto na ordem de trabalhos: associarem-se em União das Comunidades Moçambicanas, com o objectivo de ajudarem as crianças orfãs daquele país, de que dizem gostar tanto, matando-lhes a fome e ajudando-as na sua formação escolar.
Que mania temos, alguns de nós, em vir para aqui contar histórias, mais a mais um simples e inofensivo sonho, só com o objectivo de darmos nas vistas e beliscarmos os outros, já por estas andanças há mais tempo e instalados no cavalo do protagonismo que houveram por bem terem o exclusivo.
Nem calculam o martírio que foi para mim esta semana logo desde a manhã de segunda-feira.
Ao sair de casa, para a bica da manhã, já cá tinha à porta uma pequena multidão
furibunda, constituida por alguns dos elementos que mencionei no meu sonho e que, de pau na mão, olhava para mim chispando. Entre os mais agitados estavam pessoas que por várias vezes me tinham manifestado a sua empatia, a sua simpatia, o seu companheirismo, a sua amizade e alguns até que quiseram criar comigo laços virtuais “ familiares”. Dos que falavam comigo pelo MSN-Messenger, pelo Skype e me pediram o número do telefone por e-mail e, não tendo eu satisfeito o seu seu pedido, o foram conseguir através do serviço de informações do meu servidor. Arranjaram-no e telefonavam-me para longas conversas nas quais o assunto, invariavelmente, ia acabar nas questões e pessoas das diferentes comunidades. E diziam-me, com a ingenuidade dos que substimam a inteligência alheia – isto para não lhe chamar outra coisa – que não gostavam de A, B, ou C, porque não lhes respondiam às mensagens, porque tinham a mania, porque eram elitistas, porque eram vaidosos, porque lhes respondiam de forma jocosa, enfim queixas e queixas que revelavam uma incapacidade adaptação ao relacionamento social, infantil e quase autista. E eu ia-lhes dizendo que via as comunidades como um divertimento e não como um aborrecimento e quando me cansasse de infantilidades, pura e simplesmente abandonava-as. Pois é verdade, eram estas últimas pessoas, as minhas “ amigas ” que demostravam maior fúria, maior intolerância.
- Ali está o gajo – ouço gritar logo ao sair da porta.
- Olá amigos, o que se passsa – balbuciei eu espantado por os ver e conhecer, pois até àquela altura eles eram apenas virtuais.
- O que se passa? – falou um deles. - Ainda tens a lata de perguntar o que se passa, meu merdas? Então tiveste o desplante de me pores ao lado deste gajo, lá na merda do teu sonho?
- Mas, mas que mal é que tem isso? – disse eu.
- Que mal é que tem? Ainda perguntas? Então tu não sabes que já fizemos parte do mesmo site? Éramos os dois gerentes, tratávamo-nos por irmãos. Ele era cunhado da minha mulher e eu era tio dos filhos dele. A mãe dele era avó dos meus filhos e minha mãe também. O meu pai era sogro da mulher dele e tudo. Depois o gajo começou com manias de que me dava ordens e queria o protagonismo todo para ele e tivemos que nos chatear. Chamei-lhe tudo nos e-mails que lhe mandei e ele fez-me o mesmo. Quer dizer, andámos à porrada virtual. Depois cada um de nós criou a sua comunidade e dividimos os parvos que para lá escreviam umas coisitas e punham lá uns bonecos entre nós. Uns tomaram o partido dele, outros o meu. E é assim que a maioria da malta fez nas outras províncias. Por isso há mais de cinquenta sites de comunidades de amigos de Moçambique, para não falar nos blogs. Isto da globalização serve para termos liberdade de expressão e cada um ter o seu protagonismo, nem que fiquemos a falar com meia dúzia de pessoas, ou até a respondermos a nós próprios. E queres tu, na porcaria do teu sonho, vir-nos reunir de novo numa União?! Tu não percebeste a trabalheira que tivemos para nos dividirmos, pois não? Começamos por ameaçar que saíamos por três ou quatro vezes. Depois pedimos por e-mail ou telefone, aos que nos seguem como cordeiros, que se expressassem a nosso favor, no site da comunidade, pedindo-nos para não sairmos e os membros que ainda são ingénuos ou novatos nestas coisas, pedem-nos também muito para não sairmos. Dizem-nos que somos o Sol e o sal da Terra e essas cenas afagam-nos o ego e dão-nos publicidade para o blog ou para o site que já tínhamos intenção de vir a criar. Não é muito ético e moral, mas neste país onde quem nos governa faz o mesmo ou pior que importa isso?
E mais. Vais comer porrada também porque escreveste o meu nome depois dos nomes de gajos sem relêvo nenhum que gerenciam comunidades que quase não põem lá nada durante a semana. Então tu não sabes que a minha comunidade é mais importante e que devias ter escrito o nome da minha primeiro?! E outra coisa ainda. Que merda é essa de fazeres parte de todas as Comunidades de Moçambique que estão na net? Andas a ver num lado para ires levar para outro? É, é isso? Tu não sabes que só deves pertencer a uma comunidade e que não deves andar a escrever nas outras? E que deves subserviência à gerência, a quem a manipula, ou por trás de quem ela se esconde como gazelita assustada? Que deves ter cuidado com o que editas e que se fosses sensato, telefonavas primeiro a perguntar se gostávamos do que ias publicar? Os outros, os dos outros sites, são o inimigo a abater. Não prestam e estão sempre sem razão. Só nós é que temos a verdade absoluta!
- Não é nada disso – retorqui eu espantado, confuso e atordoado, por não me ter apercebido haver tantos indivíduos que se diziam saudosos daquela terra e da sua gente e que tinham uma forma tão singular de demonstrar gostar dela, gladiando-se com problemas tão pequeninos, como se eles tivessem parado no tempo e ainda pequeninos fossem. - Bom, mas pelo que vejo, já resolveram as coisas entre vocês. Estão aqui juntos de novo. Fizeram as pazes. Alegro-me. Ao menos o meu sonho sobre o congresso serviu para vos unir de novo – exclamei eu.
- Unir, uma porra! Continuamos a odiar-nos! Só nos reunimos hoje para vir até aqui dar-te no lombo, por lá, na porcaria do congresso do teu sonho, teres escrito que na mesa da assembleia geral estávamos sentados um ao lado do outro. Por causa disso, por tu falares em nomes que alguns de nós odiamos e os escreveres no mesmo texto ao lado do nosso, os gajos que se diziam teus amigos não te perdoam. Outros resolveram criar mais novas comunidades, para sairem daquelas em que publicaste a porcaria do texto, com a porcaria do sonho, com a porcaria da ideia do congresso. Mas quem tu pensas que és?
- Mas – ainda tentei eu dizer...
Meus amigos - os que o não forem que não se ofendam por os considerar a todos como meus semelhantes na medida da vossa condição humana - só sei que acordei
passados dois dias no hospital, todo partido, pela coragem daqueles que embora não gostando uns dos outros, gostavam agora ainda menos de mim, por os ter reunido num sonho que tinha como objectivo ajudar Moçambique.
Recebi também, durante a minha estadia no hospital, muitas manifestações de simpatia e tolerância da parte de muitos membros das diferentes comunidades que felizmente não são fundamentalistas e não se comportam como animais acossados, com medo de admitirem aos outros o direito à diferença e ao seu próprio ego e lutam todos os dias para tirarem este país da depressão quase colectiva em que vive, com o seu exemplo de comportamento social eticamente exemplar.
O que vos escrevo está ficcionado, claro, mas não pensem que é só pura invenção. Por muito que vos custe a acreditar, embora apenas no espaço cibernético, algo de parecido se passou. Tenho tudo arquivado. E não foi com crianças de infantil ou primária, foi com adutos para cima dos quarenta, alguns para lá dos cinquenta e outros ultrapassando já os sessenta.
Digam-me, meus caros amigos, fui eu que creci e não devia, abriram-se as portas do manicómio, estou louco, ou não se deve dizer que o rei vai nu?
Fiquem bem e até ao meu regresso depois da minha convalescência.
Um abraço para todos mesmo para os que não gostam de mim e me bateram.


Manuel Palhares

Odivelas, 20 de Novembro de 2005.

O Congresso


O pavilhão de desportos estava a abarrotar pelas costuras. A barulheira era muita com as pessoas a quererem sobrepor-se à música ambiente. O calor também se fazia sentir porque as pessoas tinham vindo com os seus agasalhos de Outono e lá dentro havia aquecimento. A decoração era garrida com todas as cores a fazerem-se representar conforme a província de Moçambique a que diziam respeito. Estavam representadas todas as comunidades mais significativas.
No soalho do pavilhão, de trás até à frente, tinham-se montado as bancadas para as diferentes delegações. À frente tinha-se montado um palco, com uma bancada para a mesa da assembleia geral, onde tinham assento os pesos pesados de cada delegação que iriam ser os moderadores do debate.
Da ordem de trabalhos constava apenas um ponto: a criação da União das Comunidades de Moçambique, constituida nos seus corpos gerentes, por elementos das diferentes comunidades.
Numa vista de olhos que lancei do cimo das bancadas, vi gente de todas as comunidades:
Lourenço Marques tinha a maior delegação: lá estava gente de Lourenço Marques / Maputo, MGM, MOH, AVM e AAULM. Pude ver que não faltaram o João e a Delagoa15, a Isabel Filipe e o Victor Passos, o Zé Paulo e a Gilda, o Zé Maria Mesquitela com o seu staff de conselheiros de respeito e o Jacinto e a Pitucha;
Da Beira tinham vindo o Jorge Cortez e a Tininha Noronha Marques;
Do Xai-Xai estavam o Orlando Braga e a Odília Leitão;
De Inhambane, que já não tem o nosso saudoso amigo Carlos Gonçalves, vi o Celestino Marrabenta e o Rogério Tutinegra que também representava Maxixe;
De Vila Pery lá estavam o Moura e o Pedro Lemos;
Tete fazia-se representar pela Maria Isabel Antunes;
Quelimane era representada pela Mizé Araújo e pelo Luís Bulha;
De Nampula vieram o Jorge Soares e o Francisco Branquinho;
Porto Amélia estava representada pelo Jaime Gabão e pela Guida Ferreira.
Também por lá passeavam o Ricky, o Diabinho, o Carlos Gil, a Teresac, a Tareca, a Bébé Gouvêa Lemos, o José de Viseu, a Tânia Mesquitela, o Ângelo, a Ana Bela, o Luís Paula Campos, o Carlos Schmidt, o Joca, o Macua da Ilha, o Salbany, o Nani, o Malhanga, a Lomba, o Moreira, o Gonzaga, o Sá, o Fernado Rebelo, o Zinho, o Carlos Araújo, a Meoliv, as manas Encarnação Vieira, a Hambanine, o Midó, o Fernando Marques, a São Percheiro, a São Alves, a Carlinha, as Xanas, a Lena, a Regina, a Ana Maria Morgado, o Luís Pereira, o Manelito, o Canário e o Tó Meneses.
O congresso começou por eleger os elementos da mesa da assembleia geral. Foram eleitos os elementos mais representativos de cada comunidade, tentando contrabalançar a idade com a experiência e participação nos grupos. Assim a mesa ficou constituida pelo Zé Maria do AVM, a Delagoa 15 de L.M., o Victor Passos do MGM, o Zé Paulo do MOH, o Cortez da Beira, o Pedro de Vila Pery, a Isabel de Tete, o Luís Bulha de Quelimane, o Branquinho de Nampula e o Jaime Gabão de Porto Amélia. Como conselheiros e representando os interesses das pequenas comunidades, a Ermelinda, o Ricky, o José de Viseu e o Celestino Marrabenta. Como presidente da mesa da assembleia geral o Magno Antunes.
Deu-se início aos trabalhos. Discursaram elementos de todos os grupos, mesmo daqueles menos representativos. Todos disseram que o seu interesse número um era Moçambique e tudo aquilo que lhe dizia respeito. Posto à votação o único ponto da ordem de trabalhos, foi eleita por aclamação geral, a criação da União das Comunidades de Moçambique, que passou a ter um corpo gerente constituido por um elemento de cada comunidade e um quadro de conselheiros constituido pelos elementos mais experientes.
Tratado que foi o único ponto da ordem de trabalhos e eleitos os quadros da União, resolveu-se logo debater em seguida as linhas de acção e orientação principais da UCM.
Houve concenso que a prioridade principal daqueles que lá fossem passar as suas férias, era o voluntariado e a ajuda material a instituições materno-infantis, vocacionadas sobretudo para crianças orfãs.
Como segunda prioridade, a tentativa, juntamente com missões religiosas e ONG’s, de um esboço para a criação de um banco alimentar contra a fome, de modo a minimizar o flagelo da fome que se está a abater sobre aquele país.
Como terceira prioridade falou-se também no voluntariado na formação de quadros para o ensino primário e secundário.
De repente acordo sobressaltado e suado. Estava a sonhar. Que pena ter acabado o sonho e a utopia. Mas lá que se podia tentar uma coisa assim parecida, lá isso podia. Houvesse para isso vontade e entrega de cada um de nós.
Desculpem se vos macei com este sonho...


Manuel Palhares

Odivelas, 13 de Novembro de 2005.

O Reitor


A Beira até a 1956 não tinha ensino público para além da 4ª classe. A partir da instrução primária aqueles que queriam continuar a estudar tinham que optar pelo ensino particular.
Só no ano lectivo de 1956 / 1957 é que abriu na Beira o primeiro liceu oficial. Por política determinada pelo governo de Lisboa, tinha que abrir naquele ano e, sem tempo para construir instalações próprias, optou-se por alugar as instalações que a directora do Colégio Luís de Camões tinha mandado construir, para aí instalar os vários graus de ensino do seu colégio que andavam espalhados por diferentes instalações do bairro da Ponta Gea. Ficavam estas instalações na esquina da rua Sancho Toar com uma rua que ia dar ao Jardim do Bacalhau e da qual já não me lembro o nome. Mas um liceu não se faz só de instalações mesmo que fossem novas e a estrear. Era preciso equipá-lo com toda a espécie de material – desde o mobiliário até ao material didático – e eram precisas pessoas que tratassem de levar a cabo essas tarefas. Os jornais da Beira anunciaram, naquela época, que nesse ano lectivo ia abrir na cidade da Beira o primeiro liceu oficial, com o nome de Liceu Pêro de Anaia e que para o efeito o governo da colónia tinha destacado diversos professores: uns vindo de Lourenço Marques outros de Portugal.
A pessoa nomeada para seu primeiro reitor e para chefiar a comissão instaladora, foi o até então secretário do Liceu Salazar de Lourenço Marques, o Dr. Armindo de Brito. Deste modo ele e mais um grupo de professores chegaram à Beira e instalaram-se no Hotel Central até alugarem casa.
Lembro-me que as aulas começaram mais tarde do que era costume porque as coisas não estavam prontas no princípio de Setembro como seria de esperar. Mas, embora atrasado, o ano lectivo começou com tudo a correr bem e eu tive o privilégio de fazer parte dos primeiros beirenses a frequentarem o ensino liceal oficial.
O Dr. Armindo de Brito, o Reitor, era uma pessoa com personalidade forte, por volta dos quarenta anos, que impunha respeito pela sua postura um tanto ou quanto grave e distante, mas que ao mesmo tempo cativava os alunos pelo seu modo de ser e de ensinar. Era licenciado em Ciências Matemáticas e foi meu professor no primeiro e segundo anos do liceu. Ensinava de um modo lúdico mas sem perder a seriedade e com ele a matemática era fácil de aprender, o que fazia dele um óptimo professor. Nas aulas e fora delas, no recinto do liceu, ele era o chefe e ninguém tinha dúvidas sobre isso.
Quando tínhamos a entrega de um ponto (teste) era uma tortura para nós, miúdos de 11 e 12 anos, irmos lá à frente ao estrado sobre o qual ele estava, receber o nosso ponto. E isto porquê? Porque ele exigia de nós a noção daquilo que tínhamos feito no ponto e obrigava-nos a dizer qual era a nota que estávamos à espera de ter. Eu disse, em epígrafe, que era uma tortura ir receber o ponto quando era a nossa vez, porque quando era a vez dos outros era uma risota.
- Senhor Palhares, que nota é que pensa que teve no seu exercício escrito? – perguntava ele com o nosso ponto na sua mão meia esticada que ia recolhendo à medida que nós esticávamos a nossa, para dessa maneira nos obrigar a chegar bem perto dele.
- Então, não temos o dia todo. Estou à espera que me diga, a mim e aos seus colegas, a nota que pensa que teve. – Ao princípio, inconsciente, pensando que aquilo era brincadeira, lá respondia olhando-o meio de lado, para também lançar um olhar divertido para os colegas:
- Treze ou catorze valores – exclamava eu sorridente. Ainda não tinha fechado o sorriso e já uma estalada tinha soado na minha cara, ou um cachaço no meu pescoço.
- Apanhou para a próxima vez aprender a ter consciência daquilo que faz nos exercícios escritos. Tome lá seu cretino, teve 10,5 valores.
- Senhor Palha de Sousa, que nota é que pensa que teve? – e o Elias António que era muito bom aluno, pensando que usando a humildade se safava, respondia:
- Doze valores! – nova estalada ou cachaço.
- Idiota! Copiou ou é idiota? Leve daqui o seu ponto. Teve 16 valores.
- Senhor Roca. Vamos! Que nota, que nota?
- Treze valores.
- Acertou. Pegue o seu exercício.
Isto era aterrador para quem ia ao estrado receber o ponto, mas divertia os outros trinta e tal alunos que assistiam às cenas que o colega fazia para tentar escapar à bofetada ou ao cachaço. Era uma risota que ele permitia.
Quando alguém se portava mal e os outros professores ou contínuos se queixavam de alguma falta de respeito ou asneira, o Dr. Armindo de Brito, se o assunto não fosse muito grave, não perdia tempo com burocracias de averiguações, conselhos disciplinares e dias de suspensão. Nada disso. Demoravam tempo, davam trabalho e por vezes não resolviam o problema de um modo eficaz. Chamava o aluno ao seu gabinete e perguntava:
- O que é que o senhor prefere? Uma suspensão ou um par de estalos? – se o aluno balbuciava “Um par de estalos”, nem tinha tempo de acabar a frase porque já estava com eles, seguidos de uma reprimenda com o aviso que aquela era a primeira e a última vez que tínhamos o seu “perdão”. Era assim o nosso reitor, o Dr. Armindo de Brito e deste modo tudo corria sem sobressaltos.
Sobressaltos houve quando num sábado à tarde, na altura das eleições para a Presidência da República a que concorreu o General Humberto Delgado, um grupo de alunos mais velhos do liceu, vestidos com a farda da Mocidade Portuguesa, atiraram com o cinto da farda que tinha um S, ao Rio Chiveve. Era suposto esse S querer significar serviço, mas toda a gente dizia que era um S de Salazar.
As autoridades civis e policiais precionaram o Reitor para que levantasse um inquérito no liceu, a fim de apurar quem tinham sido os alunos que participaram nesses desacatos e os castigasse severamente. O Dr. Armindo de Brito recusou-se a levar a cabo qualquer acção no sentido de realizar tal inquérito, alegando que tais acontecimentos tinham ocorrido fora das instalações do liceu e por isso não tinham nada a ver com o estabelecimento de ensino.
O Dr. Armindo de Brito foi demitido de reitor e mandado regressar a Lourenço Marques. Todos os alunos se quotizaram com o fim de angariarmos dinheiro para oferecermos ao nosso Reitor uma caneta. Metade da Beira se apresentou no aeroporto no dia da sua partida, altura em que um aluno mais velho, em nome de todos nós, lhe fez a oferta da caneta debaixo de estrondosos aplausos de alunos e pais.
Uns anos mais tarde, o Dr. Armindo de Brito que entretanto abandonara o ensino, regressou à Beira para ocupar o cargo de director de uma companhia de seguros. Depois da independência de Moçambique o Dr. Armindo de Brito foi nomeado Director dos Caminhos de Ferro da Beira. Foi com homens assim que tive a sorte de conviver. Já adulto quando me cruzava com ele na rua ou o encontrava em casa do meu amigo Zé Tó e o cumprimentava, tinha um prazer enorme em ouvi-lo dizer, naquela sua voz grave e com um esboço de sorriso:
- Olá senhor Palhares. Dê os meus cumprimentos ao seu pai.


Manuel Palhares

Odivelas, 5 de Novembro de 2005.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Vamos brincar?


A cena passa-se no Jardim do Bacalhau da cidade da Beira em Moçambique, no ano de 1954.
- Então ao que é que vamos brincar hoje? – perguntou o Manel. - Ninguém dá ideias? Fala Zé, diz lá. Tens alguma ideia para agora?
- Eu proponho que comecemos pelos berlindes. Que acham? – disse o Zé.
- Boa ideia, já está muito calor e sempre podemos jogar com eles aqui debaixo das árvores do jardim. Eu trouxe de todas as qualidades e vocês? Querem ver? Olhem só para estas pilecas! Já viram estas cores?! Vejam estes berlindes. São maiores que as pilecas mas são também muito giros. E estes matulões?! Reparem só no seu colorido. Ah! Também trouxe esferas: grandes e pequenas. Vejam!
Alto aí Manel! – exclamou o Zé. – As esferas só podem jogar com as esferas, porque senão dão-nos cabo dos berlindes.
- Está bem, está bem. E então começamos pelo quê? Com as três covinhas, com o círculo ou com o atiça matulão?
Entretando, vinda da zona dos baloiços, tinham-se aproximado a Maria Manuel, com os seus 13 anos, já muito mais velha que nós que andávamos apenas pelos10 anos.
- Então crianças, que asneira é que se estão a preparar para fazer?
- Olha para ela, só porque já é grande pensa que é nossa mãe – retroquiu o Manuel.
- Eu só fiz uma pergunta. Ao que é que vão brincar?
- Estamos a pensar jogar com os berlindes aqui à sombra das árvores – disse o Zé.
- Berlindes, berlindes. Vê-se logo que são ainda miúdos. Se já fossem rapazes brincavam ao “Tic -Tac” ou ao “ Naigod”.
- Até parece que percebes alguma coisa desses jogos. Ora conta lá como é que se jogam – pediu-lhe o Cajó que entretanto tinha chegado.
- Então, o “tic-tac” joga-se com dois paus redondos: um mais comprido e outro mais pequeno. Faz-se uma cova no chão onde se coloca o pau pequeno até meio e com o pau grande bate-se nele de modo que ele ganhe altura e depois torna-se a bater nele com o pau grande de maneira que o pau pequeno vá parar o mais longe possível da cova. Em seguida conta-se com o pau grande quantas vezes ele cabe na distância que separa o pau pequeno da cova e assim se obtém a pontuação. E o “naigod” joga-se com uma bola de ténis e três latas vazias de leite condensado da Néstlé ou Bebé Holandês. Uma equipa tenta deitar abaixo as três latas que previamente se colocam umas em cima das outras e afastá-las o mais possível, enquanto a outra equipa tenta empilhá-las de novo e gritar “naigod”. Entretanto a equipa que deitou as latas abaixo tenta agarrar a bola e atingir-nos com ela e se o conseguir esse jogador fica fora de jogo. A equipa que tem que empilhar as latas tenta chutar a bola para o mais longe possível.- Nós estávamos de boca aberta com a sabedoria lúdica da Maria Manuel. Até que o Cajó lhe perguntou:
- Como é que tu sabes tanto sobre jogos de rapazes?
- Porque não sou idiota e criança como tu! Adeus meninos divirtam-se com esses jogos idiotas de berlindes – disse a Maria Manuel com um ar superior.
- Ouve lá sua peneirenta – exclamou o Zé, faíscando com o olhar a Maria Manuel. – Se calhar jogar ao “Ovo Podre”, ao “Lenço”, à “Macaca”, “À Semana”, “Às Rodas”, “Ao Ring”, não é jogar jogos idiotas?!
- O que tu queres é conversa. Se calhar andar por aí de pistola de fulminantes nas mãos a figirem que são “cowboys” e índios não tem nada de tonto! – exclamou a Maria Manuel, rindo-se e virando-nos as costas com uma gargalhada cristalina que nos deixou furibundos.


Manuel Palhares

Odivelas, 7 de Novembro de 2005.

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